A coisa é chique. Impresso na região de Verona, berço
das melhores gráficas do mundo, o livro de luxo traz o
requinte dos gols de Pelé. O papel utilizado, o
GardaPat Kiara, produzido sob encomenda por uma
indústria sediada às margens do Lago de Garda, também
na Itália, é especial como as atuações do Rei em Copas
do Mundo. O acabamento, realizado artesanalmente por
um estúdio em Turim — com capa e estojo revestidos de
seda italiana e lombada de couro natural —, é delicado
como o sorriso do menino Edson.
Voltado para colecionadores abastados, numerado e de
tiragem limitada, 1283 (número de gols da carreira do Rei)
pretende ser a compilação fotográfica definitiva de Pelé.
Lançado com pompa no último dia 16 de outubro, no
Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, pela editora
Toriba, o livro custa 3 600 reais em seu formato mais
“simples” e 5 500 reais na edição “king”.
O que diferencia uma edição da outra (a cara da muito
cara) é a presença da lendária foto “O Coração do Rei”,
de Luiz Paulo Machado, ex-fotógrafo da PLACAR,
encartada de forma avulsa, numerada, impressa com
pigmentos minerais em papel Canson Infinity 100%
algodão e assinada tanto por Pelé como pelo fotógrafo.
Trata-se de uma das imagens mais clássicas de Pelé e
uma de suas fotos mais conhecidas no mundo.
Para Pelé, “é um registro que só Deus pode explicar”.
Para Machado, é sua obra-prima.“É uma foto reconhecida
mundialmente. Sem dúvida, é minha foto mais importante.”
Embora inacessível para a imensa maioria dos amantes
do futebol, a iniciativa merece aplausos. Só que tem um
probleminha: traz informações erradas sobre sua peça
mais importante. O livro diz que “O Coração do Rei”, cujo
encarte em formato especial faz com que o livro custe
quase 2 000 reais a mais, foi tirada no dia 18 de julho de
1971, durante o empate em 2 x 2 entre Brasil e Iugoslávia,
no Maracanã, na despedida do Rei com a camisa da
seleção brasileira. Um erro de vários anos.
FOTO CERTA, DIA ERRADO
Ao pesquisar a história da foto, os editores do livro
acabaram deparando com uma série de dúvidas.
Oficialmente, a foto não tinha uma data certa, já que o
slide original, arquivado no Dedoc (onde estão os
arquivos da Editora Abril, que publica a PLACAR), estava
em branco, sem qualquer informação que pudesse
esclarecer a questão. Ok, culpa nossa…
A data da primeira publicação da imagem em revistas da
editora também era incerta. Extraoficialmente, porém,
circulava a informação de que a foto teria sido feita em 30
setembro de 1970, durante o amistoso Brasil 2 x 1 México,
conhecido como “Jogo da Amizade”.
Os editores do livro não perguntaram à redação da
PLACAR sobre a data da foto. Foram direto ao autor, que
disse ter certeza absoluta de que a partida em questão
era Brasil 2 x 2 Iugoslávia. E assim ficou.
Mas, descobrimos agora, as duas hipóteses estão erradas.
No jogo Brasil x México, o uniforme da seleção ainda não
possuía as três estrelas — seriam usadas pela primeira
vez no amistoso contra a Áustria, no Morumbi, em 1971.
Quanto ao jogo Brasil x Iugoslávia, seria impossível que a
foto tivesse sido captada nesse jogo, pois a partida foi
realizada durante o dia e Pelé atuou apenas no primeiro
tempo. E “O Coração do Rei” é uma foto noturna. Mais: o
nome de Luiz Paulo Machado nem ao menos consta no
expediente da edição 71 da PLACAR, que noticia a
despedida do Rei. O telefonema do então chefe de
reportagem da PLACAR Juca Kfouri, eufórico com o slide
em mãos, ao fotógrafo, pouco depois da revelação da foto,
também não poderia ter ocorrido em 1971, já que Kfouri
passou a atuar na revista somente em 1974.